This is my chapter for the book "Desaparecidos: A Vida de Quem Fica", which my college mates and I wrote as our final work (Trabalho de Conclusão de Curso, or just TCC) to get our Bachelor's Degree in Journalism.
I've published it on my Medium as well: https://larissa815.medium.com/andré-grabois-a-história-de-um-desaparecido-político-e53cc69f1b2a
[Esse foi o trecho que escrevi no livro-reportagem “Desaparecidos: A Vida de Quem Fica”, feito em conjunto com meus colegas de faculdade como TCC.]
Foi uma despedida tensa. A tarefa da esposa de André era a mais difícil: locomover-se em uma área de conflitos, correndo o risco de ser presa ou atacada. Ficando na selva, escondida dos helicópteros militares que rondavam a região do Rio Araguaia, no norte do país, seria menos perigoso. Já fazia cinco meses que ninguém havia morrido, e André não queria que a mulher que carregava seu filho no ventre, fosse a próxima.
Mas o trabalho dela precisava ser feito. Além do mais, quando Criméia voltasse, ele finalmente conheceria o bebê, que nasceria em melhores condições. Ele a entregou nas mãos de um colega militante, e a viu partir, rumo a uma viagem cheia de percalços até São Paulo.
E assim se despediria o jovem casal. Para sempre. André não chegou a conhecer seu filho, e não pode ver sua mulher mais uma vez. O destino tinha outros planos para a vida daquela pequena família, que mal havia começado.
André Grabois nasceu em 3 de julho de 1946. Era filho de dona Alzira da Costa Reys, e de Maurício Grabois, um dos líderes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Foi no Rio de Janeiro, onde nasceu, que André estudou o primário e o ginásio. Já nessa época, por influência do convívio com militantes comunistas, começou a interessar-se por política.
Em 1964, chegou a ditadura. Seu pai começou a ser perseguido, e por isso André entrou na clandestinidade, aos 17 anos. Sabia que a vida não seria fácil depois disso. Em 1967, viajou com outros militantes para a China, onde se capacitariam militar e politicamente. Nessa viagem, teve seu passaporte (falso) apreendido sutilmente pela CIA em um dos aeroportos. Uma cópia do documento foi enviada ao DOPS: André estava “marcado”. Depois que o passaporte foi devolvido a ele, com um “desculpas pelo erro”, o grupo sabia que tinha algo errado. Como todos tiveram seus passaportes analisados, acharam mais seguro, na volta, entrar de forma clandestina ao Brasil. E foi o que fizeram.
André chegou em 68 na região do Araguaia. A ideia era criar uma zona de refúgio no local, e fazer ações em cidades menores. Eles reconheciam que não era possível resistir nas zonas urbanas, já que nelas, a concentração de militares era maior. Por isso, era necessário agir a partir do campo. Zé Carlos, nome falso que André usava, era o comandante do Destacamento A.
No ano de 69, chegou à região a moça com quem André ficaria por três anos. Conheceu Criméia, que vinha de São Paulo. Ela sempre quis ficar no campo, e a chegada do AI-5 fez a sua vontade aumentar. Os dois se conheceram, se gostaram, e pouco tempo depois, já estavam namorando. No entanto, a direção do partido não gostou dos dois juntos: era o que chamavam de “peia”, outro nome para “obstrução”. Para os líderes, uma das maiores complicações de um relacionamento seria a gravidez, que deixaria o movimento com um membro a menos, e uma vida a mais para cuidar, no meio de uma situação como aquela. Mesmo assim, o pai de André, também da direção do PCdoB, não os impediu. O casal continuou vivendo junto. E Criméia engravidou.
Enquanto a mulher trabalhava também cuidando da saúde dos moradores, André era comerciante, e ficava na roça, plantando, colhendo, subsistindo. A caça fazia parte do treinamento guerrilheiro, assim como a sobrevivência naquele lugar, quase isolado. Moraram em casas simples de palha e pau-a-pique. Esse era o dia a dia deles no Araguaia.